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My Moyo: o clube de costura solidária de Torres Vedras que ajuda quem mais precisa

A associação procura levar um pouco mais de conforto à vida dos miúdos que vivem em países com economias frágeis.

O My Moyo é um clube de costura solidária, fundado em 2017 em Torres Vedras, com o propósito de levar um pouco mais de alegria aos que mais precisam. Neste clube, onde toda a gente está convidada a ajudar, são costurados vestidos, calções, peças de enxoval, absorventes higiénicos, fraldas reutilizáveis, mochilas, estojos, entre muitas outras coisas. Todas estas peças, manufaturadas por voluntárias, são posteriormente enviadas para países de economia frágil, através de boleias solidárias que fazem ponte com associações, escolas ou missões locais.

Em Portugal, esta organização sem fins lucrativos, também apoia famílias em dificuldades. Com o propósito de ajudar a melhorar o mundo, uma peça de roupa de cada vez, a My Moyo inaugurou um novo espaço a 15 de novembro, na antiga escola primária do Ramalhal, no concelho de Torres Vedras. Aos sábados toda a gente está convidada a aparecer para ajudar a montar e costurar pequenas peças que fazem uma grande diferença.

“A minha paixão pelo voluntariado vem de Angola. Vivi em África durante quase sete anos, sou formada em Engenharia Alimentar e fui para lá por causa de um projeto profissional. Depois, cruzei-me com um projeto chamado Mães Unidas e Solidárias em Angola, em que dávamos uma refeição por dia às crianças que estavam no hospital pediátrico. Começou aí, ao fim de semana eu ia apoiar as senhoras na cozinha e servia a sopa aos miúdos e apercebi-me que o meu propósito de vida é o voluntariado, é algo que me chama e que eu me identifico”, começa por explicar Susana Santos, atual presidente da My Moyo, em entrevista à NiO.

Susana esteve em Angola entre 2012 e 2017 e, entre idas e vindas a Portugal, ainda passou por Angola por duas vezes antes de ficar por cá de vez, na altura da pandemia. “Na minha primeira vinda a Portugal, descobri a My Moyo. Este projeto foi fundado pela Sofia Figueiredo e foi ela que escolheu este nome, que significa coração num dialeto da África Oriental, um idioma suali. O nosso símbolo é o coração e reflete o amor, a alma. No fundo, o projeto é isto, é costurar com amor.”

“Quando me juntei à My Moyo nem sabia costurar, mas gostava muito da finalidade do projeto. Em 2021, mudei-me para o norte e levei a My Moyo até Espinho, onde nos instalámos num bar que pertencia a um campo de futebol, e acabou por haver muita adesão. As pessoas começaram a aparecer, haviam muitos donativos e fomos crescendo. Atualmente, em Espinho, estamos num novo espaço cedido pelo município de Espinho e as pessoas continuam a juntar-se lá para costurar e fazer vestidos e calções”, afirma.

O grupo aceita todo o tipo de ajuda, e, a sua ação tem um impacto transversal, tanto em que recebe as roupas, como em quem produz. “Acabamos por promover também a autoestima e o convívio entre pessoas mais solitárias e depois também temos o outro lado muito gratificante em que as nossas voluntárias veem os miúdos vestidos com as peças de roupa que fizeram aqui. Nós aceitamos donativos em génerso, ou então em dinheiro, que depois usamos para comprar os materiais com os quais fazemos as nossas roupas. Quem não sabe costurar corta os tecidos, faz os moldes, passa a ferro, faz crochê ou casaquinhos. Acabamos por ser uma família e fazemos encontros anuais, em que o grupo do Norte vem cá a Torres Vedras, ou vice-versa”.  

“Em África, em países de pouco desenvolvimento, é fácil vestir os miúdos e basta um vestido ou uns calções para que eles possam andar por lá. A finalidade do nosso projeto não é aceitar peças de roupa, é fazer estes calções e estes vestidos para que todos tenham a oportunidade de ter a mesma roupinha. Porque, se as pessoas doarem uma camisola, uns calções, um blusão, nós não conseguimos garantir que as crianças tenham todas acesso às mesmas peças de roupa e assim, com este sistema, todos têm uma peça nova, sendo que a diferença está apenas na cor. Com cada peça de roupa segue também umas cuecas novas para os miúdos. Este tipo de coisas segue maioritariamente para África, sendo que aqui em Portugal damos mais apoio em hospitais ou em juntas de freguesia quando somos solicitadas. Temos uma caixinha preparada com uma mantinha, um gorrinho, umas botinhas, chamamos-lhe a caixinha do bebé e costumamos colaborar com o Banco do Bebé, a maternidade do Hospital Dona Estefânia, a Casa Fundação Ronald McDonald… acabamos por trabalhar em conjunto com várias instituições e organismos”, explica Susana, revelando ainda que também apoiam o Instituto Português de Oncologia.

A roupa veste vários miúdos em África.

“Enviamos os nossos vestidos, os nossos estojos, material escolar que recolhemos e tudo o resto que fazemos aqui para países como Angola Guiné-Bissau, Moçambique, Zanzibar, Cabo Verde… e muitas das vezes as pessoas têm aquele estigma de como é que sabem que as coisas que fazem e que dão chegam aos miúdos. Nós não enviamos nada em contentores ou transportadoras, nós aproveitamos as pessoas que vão de férias ou em missão para esses locais e que tenham um espaço extra nas suas malas para levarem as nossas coisas e para as entregarem nos locais. Recentemente, tivemos uns enfermeiros que costuma ir em trabalho para Cabo Verde e que levaram algumas coisas, também entregámos recentemente cerca de 200 estojos em Burkina Faso, e as coisas vão acontecendo assim. A única coisa que pedimos é uma evidência fotográfica em como as coisas foram entregues”, afirma.

Essa mesma evidência fotográfica acaba por ser importante não só para verificar que os materiais foram todos entregues, mas também para que as voluntárias possam ver que o seu trabalho dá frutos, explica Susana. “Esta evidência fotográfica que recebemos é muito importante, porque acabamos por mostrar as fotos às senhoras que se voluntariam para fazer os vestidos e os calções e elas ficam muito contentes e comentam entram elas ‘Fui eu que fiz aquele vestido!’ e depois outra responde, ‘Mas, fui eu que fiz o pedacinho’, então acaba por ser uma competição saudável entre elas e cria-se uma dinâmica muito engraçada”.

“A idade das nossas voluntárias vai entre os 11 e os 84 anos e, neste momento temos cerca de 55 sócios ativos, mas queremos ter muitos mais. Também acabamos por organizar feirinhas, eventos nossos, em que vendemos por um valor simbólico porta-chaves e outras coisas que fazemos com os tecidos que sobram para termos algum fundo de maneio”, explica Susana.

Apesar das voluntárias se poderem reunir no novo espaço da My Moyo todos os sábados, Susana explica que, muitas das vezes, as mesmas acabam por levar kits previamente preparados para casa, onde manufaturam os vestidos e calções durante a semana: “As pessoas fazem os detalhes dos vestidos como querem, temos os materiais todos à disposição e depois montam as peças conforme acharem. Toda a confeção fica ao critério das voluntárias e há quem coloque florzinhas de crochê nos vestidos, por exemplo. A única coisa que não queremos é que doem materiais que estão em mau estado, porque o que não serve para nós não serve para mais ninguém e, ainda por cima, estamos a falar de miúdos que não têm nada. Nós não aceitamos peças de roupa, mas quando nos chegam essas coisas nós fazemos uma triagem e enviamos para outras associações”.

Desde tecidos a botões, material de costura e materiais escolares, tudo conta para que a My Moyo possa proporcionar uma vida ligeiramente melhor aos que mais precisam. Com peças de roupa direcionadas para miúdos entre os 2 e os 16 anos, estojos, mochilas e materiais escolares, a associação também distribui bonecos feitos pelas voluntárias para os mais novos, com uma especificidade: “Os bonecos que fazemos aqui e que enviamos para esses miúdos não têm um sorriso ou expressão na cara, para que eles possam refletir nos bonecos o que sentem, porque nem sempre estão felizes”, conta Susana.

O novo espaço da My Moyo, localizado na antiga escola primária do Ramalhal, no concelho de Torres Vedras, está aberta todos os sábados entre as 10 horas e as 18. Com toda a comunidade convidada a ajudar, pode saber mais sobre o projeto no Facebook ou Instagram. Além disso, caso queira fazer donativos ou obter mais informações sobre como tornar-se sócio, poderá entrar entrar em contacto direto por telefone (965 742 827).  

Carregue na galeria para conhecer o novo espaço e alguns dos trabalhos da associação. 

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